Valor Econômico – 25/04/2016

O maior problema que o país enfrenta hoje é que as pessoas não conseguem ver o futuro. A boa notícia, se é que assim pode ser chamada, é que batemos no fundo do poço. A percepção é de Michael Klein, presidente do Grupo Capital Brasileiro (CB) e um dos empresários que mais conhecem o varejo nacional. Está baseada no desempenho de seus negócios – ele administra 432 imóveis, sendo 376 lojas, e tem 27,4% do capital Via Varejo, a maior varejista de eletrodomésticos e móveis do país, com as redes Casas Bahia e Ponto Frio.

Nos últimos meses, sentiu os efeitos da crise em suas empresas, teve que ceder e dar descontos a inquilinos. Seu patrimônio imobiliário é avaliado em R$5 bilhões.

“Sem pegadinha, porque não da para ter pegadinha nisso, acho que chegamos ao fundo do poço, porque não tem mais de onde tirar. Já passei crises piores, quando Zélia [Zélia Cardoso de Mello, ministra da Economia do governo Collor] cassou todo o dinheiro, ali acabou. Você não tinha alternativa, foi pior do que hoje. Aquela [crise] do fim dos anos 90, melhorou para gente, porque redes faliram e o mercado se concentrou”, disse ele.

Klein diz acreditar em um início de recuperação da economia, lento, como reflexo de um ajuste nas contas que o atual, ou um novo governo, precisa fazer.

“O que vai acontecer é que o varejo, quando começar a se recuperar, irá acelerando aos poucos e pode ser que não chegue rapidamente àquela base mais forte de 2014, mas acho que vai crescendo até chegar nisso. Não sei dizer se em 2020 [previsão do mercado] ou antes”, disse o empresário ao Valor.

Klein entende que se Dilma Rousseff sair ou ficar na Presidência da República, medidas terão que ser tomadas para colocar o país nos trilhos. “Não torço para nenhum dos dois [Dilma ou Michel Temer]. Eles terão que fazer a lição de casa até 2018, não há outra alternativa. E há coisas que podem ser feitas sem depender do Congresso, como plano de concessões e desmobilização [de ativos da Petrobras]. Não sou eu que devo achar que ela tem que sair ou não, é a Câmara e Senado”.

Para Klein, o setor de varejo eletroeletrônico, com quedas entre 15% a 20% nas vendas em 2015 – a Via Varejo encolheu quase 13% de janeiro a março – “só vai melhorar quando o crediarista tiver confiança que vai ter emprego”, diz. “Vemos pontos fechados, mas acho que a loja de rua ainda sofre menos do que a loja do shopping center, porque o shopping tem despesas como condomínio e taxa de fundo de promoção, e a loja de rua não tem isso”. Klein tem 28 lojas alugadas para a C&A desde 2014 e 70% dos seus imóveis são locados para Casas Bahia e Ponto Frio.

No total, são 432 imóveis no portfólio (376 lojas), sendo que há dois anos eram 384 imóveis. O patrimônio de R$4 bilhões em meados de 2014 atinge hoje R$5 bilhões, entre pontos de venda, estacionamento, lajes corporativas, hangares e pontos alugador até para igrejas. Nessa conta é preciso considerar a operação da CB Air, empresa que aluga jatos executivos e helicópteros e que começou a operar em 2015.

Klein diz que o Grupo CB registrou queda de um dígito na receita bruta do ano passado, para R$400 milhões, como reflexo da recessão. “Em 2016 pode ser que o aumento da operação da CB Air compensa a queda em aluguéis e é provável que repetiremos os R$400 milhões”.

Klein conta que, se por um lado, ele pode comprar terrenos e imóveis a preços mais camaradas, por outro, cresce a demanda para renegociar os aluguéis, para valor menores. Dos R$400 milhões da receita, R$300 milhões são aluguéis.

“Quem mais pede [renegociação] é o varejo. Para algumas lojas da Via Varejo nós demos. Outras bandeiras também caíram, até farmácia desacelerou. O problema é que em cima dessa queda de 15% no varejo [eletroeletrônico em 2015], tem ainda a inflação de 10%, então você está perdendo 25%, na verdade. Temos conversado com inquilinos e estamos negociando redução de aluguel, e também, em certos casos, não aplicando correção no contrato antigo. E vale a pena porque a despesa para manter o imóvel, com manutenção, IPTU, condomínio, faz você repensar”.

Nesse cálculo, Klein diz que a depreciação de ativos tem afetado resultados. “Em 2015, eu tive que depreciar o valor das aeronaves e muitas vezes não se consegue ainda a receita para compensar isso. Em imóveis, também há esse fator, mas é um prejuízo que vai sendo reduzido ao longo dos anos”, afirma. “Não entrei nesse negócio para o curto prazo, para especular, para comprar e vender e ficar com a diferença. Eu e meu pai [Samuel Klein] nunca pensamos nisso. O carnezinho da Casas Bahia era para pagar em até 36 vezes, no longo prazo. Ainda pensamos assim”.

Com o negócio de táxi aéreo, que já completou pouco mais de um ano, foram R$10 milhões em receita bruta em 2015 – a expectativa era de R$18 milhões. A necessidade de obter licença para cada aeronave adiou a meta de R$18 milhões. Para a primeira licença, foram dois anos de espera. Hoje, são seis licenças obtidas, de um total de 13 aeronaves. Se saírem as demais até o fim do ano, a estimativa é faturar na CB Air entre R$50 milhões e R$60 milhões em 2016, incluindo prestação de serviços. Houve redução do parque de jatos executivos no país, com empresas vendendo suas aeronaves, e a CB Air aproveitou para ampliar sua frota.

Além dos imóveis e da operação de táxi aéreo, neste ano Klein começou a operação da CB Motors, abrindo revendas da Mercedes-Benz. Ele conta que o estudo da marca era ter 44 lojas no país, que seriam atendidas pela nova fábrica, em Iracemápolis (SP), aberta em março, mas outras 16 foram adicionadas ao plano. “Nossa ideia é tentar as 16 porque precisamos de ganho de escala, para ir diluindo custos. Mas está bom se chegarmos a até umas oito até 2020”.