Valor Econômico – 14/02/2014

Michael Klein, que deixou a presidência do conselho de Via Varejo na quarta-feira, quer investir: “Não vivo de aluguel nem de multa, eu quero empreender”

Michael Klein, que ajudou o pai Samuel Klein a criar a maior varejista de produtos eletroeletrônicos do país, não tem mais tanta voz na Casas Bahia, mas dá expediente diário na antiga sede da empresa, no centro de São Caetano do Sul (SP). É de sua sala, no quinto andar, que ele busca novos negócios para investir, ancorado em um patrimônio de R$ 4 bilhões em imóveis e mais R$ 2 bilhões em caixa, verba captada com a venda das ações que detinha na Via Varejo.

“Quem sabe podemos ter uma participação em shoppings ou numa indústria. Chega de tudo em nossas mãos, estamos abertos. Mas tem que ser algo duradouro, não é para entrarmos num negócio e sairmos logo depois”, disse Michel Klein ao Valor.

Foi contratado nesta semana o ex-sócio da E&Y, Luiz Nanini, como diretor de novos negócios da família Klein, que irá analisar ativos no mercado.

A família Klein captou pouco mais de R$ 2 bilhões quando vendeu suas ações da Via Varejo e não mexeu nesse dinheiro ainda. “O dinheiro está no banco até a família formar um fundo com esses recursos e decidir o que fazer”.

Michael e o pai estão organizando os negócios da família no Grupo CB – sigla de Capital Brasileiro e não de Casas Bahia, marca que pertence ao Grupo Pão de Açúcar, que ao criar a Via Varejo em 2010 uniu Casas Bahia e Ponto Frio. Em 2011 a família criou a Capital Brasileiro Empreendimentos e Participações (CBEP), empresa que vai comprar participações, minoritárias e majoritárias, em empresas que não atuam no varejo.

O negócio mais estruturado da família está na área imobiliária. São 345 lojas alugadas para Casas Bahia, Ponto Frio e outros varejistas, além de galpões, armazéns, galpões, prédios e agências bancárias. Em 2011, o valor patrimonial dos imóveis alugados pela família era de R$ 2,3 bilhões. Ao fim de 2013, R$ 4 bilhões.

Sessenta lojas foram adicionados à essa base de lojas alugadas pelos Klein nos últimos dois anos – 47 dessas lojas foram para redes não ligadas à Via Varejo. “Se eles [Via Varejo] não querem, posso oferecer a outras redes. Alguns imóveis que eles [Via Varejo] demoraram para me responder, eu aluguei pra Marisa, Bradesco e Boticário”, diz Michael. No fim de 2011, a família embolsava por ano R$ 140 milhões em aluguel de suas lojas para Casas Bahia e Ponto Frio. Em 2013, somando todos os imóveis (pontos, armazéns, prédios) a soma atingiu R$ 246 milhões (valor a ser auditado). O montante é 35% superior a 2012. HSBC, Santander, Banco do Brasil e Bradesco também são inquilinos da família, além de farmácias.

Até hoje, a família tem investido com capital próprio. A Casas Bahia Comercial, que não entrou na fusão com Ponto Frio, é a empresa que reúne o capital para investimento dos Klein e onde é depositada a receita dos aluguéis cobrados de diversos inquilinos. “De lá, a gente só tira o dinheiro para o sustento, no resto, não mexemos”. Esse caixa soma hoje cerca de R$ 400 milhões. “Ao ano são R$ 100 milhões a mais que entram, não precisamos mexer no dinheiro do IPO ou pedir recursos em bancos”.

“Minha ideia não é sentar nos imóveis e viver de aluguel. Eu não vivo de multa. A Via Varejo me devolveu uma fábrica [de móveis] da Bartira porque eles juntaram as unidades. Não cobrei multa e aluguei o espaço para a [empresa de logística] Júlio Simões. Não vivo de aluguel nem de multa, eu quero empreender”.

A área imobiliária rende mais dinheiro para a família do que rendia varejo? “Hoje eu prefiro fazer lojas para os outros. É um novo ciclo para nós”, diz o empresário. “No varejo você não precisa ter o imóvel, porque acaba alugando e com o que você ganha de receita, paga o aluguel e ainda sobra. Hoje o meu investimento todo é comprar terrenos, construir e alugar. Isso hoje me dá mais dinheiro do que aplicação financeira”.

A família ainda tem uma operação de serviços aéreos, que ficará abrigada na Capital Brasileiro Air. São negócios como o aluguel de jatos e de espaço em hangares. Em 2013, os Klein enviaram à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) uma solicitação de licença de taxi aéreo. “Quando isso aprovar, podemos comprar mais jatos e colocar para alugá-los”, afirma Klein.

Hoje são três jatos e quatro helicópteros. Para o período da Copa do Mundo, o hangar dos Klein no Campo de Marte, em São Paulo, deverá receber jatos de turistas e empresários. Se forem jatos grandes, cabem dez, ou 15 médios. “A gente vai colocar o que der”, diz Klein.

Uma nova fase, de fato, começou para Michael Klein. Desde a quarta-feira, ele não preside o conselho da Via Varejo. Foi substituído por Ronaldo Iabrudi, homem de confiança do Casino e presidente do Grupo Pão de Açúcar, controlador da Via Varejo.

O afastamento dos Klein dos negócios da Via Varejo foi sendo feito aos poucos. Os serviços de segurança patrimonial que uma empresa dos Klein prestava à Via Varejo, por exemplo, foram suspensos no ano passado. Klein conta que tinha 500 funcionários na área, mas com o fim do contrato com Via Varejo, “paramos [de atuar em segurança patrimonial]. Distribuímos os funcionários a três empresas do ramo”. A exceção é o aluguel de 285 lojas de propriedade da família e locadas à Via Varejo.

A família que fundou a Casas Bahia não planeja voltar ao varejo. Não há informações no contrato entre a família e o GPA que determina um período de “non-compete” – uma quarentena que impediria uma volta ao varejo. “Ninguém me diz se tem isso [cláusula de não concorrência], e se tem, deve acabar quando eu deixar o conselho, mas eu não vou sair do conselho”. Ele saiu da presidência, mas continua membro do conselho. Perguntado se pretende vender o restante de suas ações na Via Varejo, responde: “A princípio, não. Eu deixo lá uma parte da empresa e vamos esperar o mercado melhorar”. Os Klein têm hoje 27,3% da Via Varejo (tinham 47% antes da oferta de ações feita em dezembro) e o GPA, 43,4%.