O Globo – 2 de setembro de 2016

Presidente do Grupo CB diz que empresariado está otimista, mas espera resultado do ajuste, que precisa ser iniciado antes das eleições de outubro

Quanto tempo o governo do presidente Michel Temer terá para aprovar o ajuste fiscal sem perder o voto de confiança do mercado?
Eu diria que o governo tem de tomar as medidas desde já. Vamos ter em outubro as eleições municipais, e, se Brasília for esperar o resultado para só depois agir, vai cair no mesmo erro do governo anterior, que esperou a eleição acontecer e depois fez um pacote para conter gastos. Eu acho que tem que levar adiante as medidas antes das eleições. Não tem o que esperar.

A pauta começa com a proposta de emenda constitucional (PEC) do teto de gastos. É o mais importante?
Acho que caberia até não seguir a inflação para reajustar o aumento dos gastos públicos. A correção poderia ser por um percentual menor do que a inflação, porque, senão, volta a correção monetária, que nem existe mais. Ou uma medida mais extrema seria congelar o gasto do governo pelo valor do ano passado. Automaticamente, isso já estaria reduzindo a inflação.

E a reforma da Previdência?
Tem que ter uma idade mínima para se aposentar. Hoje, uma pessoa com 60 ou 70 anos está apta a trabalhar. Tem um histórico e uma experiência ótimos para passar para frente. Poderia começar com um teto de 65 anos para homens e 60 para mulheres. Depois, por escala, poderia aumentar mais cinco anos e sentir o que acontece. Hoje, os homens com 75 anos ainda estão ativos, com a evolução da medicina. Mas tudo isso valeria para quem está entrando no mercado. Quando a regra é válida daqui para a frente, não tem porque chiar. A chiadeira acontece se mexer no direito adquirido. Não pode suspender os direitos da pessoa que ia se aposentar pelas regras atuais.

E a confiança dos empresários, como está?
Há muitos empresários com quem converso que estão esperando as medidas (de ajuste) e esperando elas surtirem algum efeito. Não vou esperar o governo decidir. Faço a minha parte. Eu vou antecipar, fazer tudo que deve ser feito. Por exemplo, investir no setor de imóveis, que está com os preços mais em conta agora. Quando o mercado estiver deslanchando, o preço vai ser mais caro. Isso vale para imóveis ou qualquer atividade. O empresariado está otimista, mas eles querem esperar o resultado das medidas. Por isso, acho que, quanto antes o ajuste vier, melhor para todo mundo.

Além do ajuste, o que mais deve ser feito para ajudar na retomada da economia?
Uma delas seria liberar mais crédito. Isso poderia ser feito reduzindo o compulsório dos bancos, por exemplo. Com isso, esse dinheiro volta para a população, em forma de empréstimos, e a economia começa a girar. E, com mais gente tomando crédito, os bancos podem emprestar por um juro mais baixo.

O crédito já foi um dos pilares do crescimento da economia, mas os especialistas dizem que esse modelo se esgotou, que a inadimplência subiu muito quando o crédito foi farto…
Para a inadimplência não crescer, é preciso estabilidade no mercado de trabalho. Com isso, as pessoas podem, novamente, assumir um financiamento. O que mais preocupa a população é a questão do emprego. Quando o desemprego começar a cair, a indústria vai voltar a produzir, e o consumo crescerá. O crédito vai voltar a puxar a economia.

A taxa de juros em 14,25% também não inibe o crédito?
A taxa é muito alta. Para quem vai viver de renda, esse juro é muito bom. Para quem fazia prestação, há impacto na ponta. Mas a falta de crédito também prejudica. Na Via Varejo, por exemplo, o crediário migrou para o cartão de crédito, que tem juro muito elevado. Isso acontece porque não há mais facilidade para fazer crediário.

E o que é preciso fazer para destravar as concessões e privatizações no país?
O empresário tem interesse. Mas tem que ter também uma garantia de que vai obter um financiamento de longo prazo. Mas não como se trabalhava, com o BNDES emprestando a maior parte dos recursos. Assim, o risco fica só para o banco. O empresário tem que investir recursos próprios também e dividir esse risco com o banco. E o Estado não precisa ficar em todas as áreas. Não é necessário ter um posto (refere-se à BR Distribuidora) em cada esquina. Também há muitos aeroportos — eu diria a maioria — a serem privatizados no país. E acho que não cabe ao governo definir a Taxa Interna de Retorno (TIR) dos projetos. O governo deve apenas fiscalizar tudo através das agências reguladoras.

O senhor comprou uma empresa de aviação duas semanas atrás (a Global, por R$ 38 milhões, mais dívidas). Mas fala-se que gostaria de ter o controle da Via Varejo, dona da Casas Bahia…
Isso não procede. Meu relacionamento com os atuais sócios é muito bom. Não tive conversas nesse sentido. Se fosse para recomprar, não teria feito a venda. Continuamos como o segundo maior acionista, com 27,5%. E parece que os franceses do Casino (que controla o Pão de Açúcar) alinharam o rumo. Sou membro do conselho e a decisão de colocar a Cnova Brasil sob a mesma gestão da Via Varejo foi insistência da minha parte. Com gestões separadas, a internet e as lojas físicas viraram concorrentes. Agora vão fazer do meu jeito.

Por João Sorima Neto