Folha de São Paulo – 14/02/2014

O empresário Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, fez uma das maiores fortunas do país vendendo TVs, geladeiras e móveis para gente de orçamento apertado, que só conseguia comprar à prestação.

O filho Michael vendeu a empresa em 2009 e colocou uma bolada no bolso. Agora, parte para novas empreitadas, desta vez de olho numa clientela que tem muito dinheiro para gastar.

As novas apostas estão na área imobiliária e na aviação executiva. Proprietária de 384 imóveis, avaliados em R$ 4 bilhões, a família Klein tem lojas, prédios comerciais, centros de distribuição e galpões industriais alugados para bancos, redes varejistas e grandes empresas. No ano passado, faturaram R$ 246 milhões com imóveis.

Os Klein também querem montar uma empresa de táxi aéreo. Já são donos de dois hangares, um heliporto, três jatos executivos e quatro helicópteros, e esperam autorização da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para começar a operar.

“Se tudo der certo, a meta é ter a maior empresa de imóveis do país”, afirma Michael Klein. “E o táxi aéreo também é um negócio promissor, porque o Brasil é o segundo maior mercado do mundo para jatos executivos, só os Estados Unidos têm mais.”

À PROCURA DE ALTERNATIVAS

Em breve, esse leque deverá aumentar. O empresário está procurando alternativas para investir os R$ 1,6 bilhão que recebeu no fim do ano passado, com a venda de 20% da Via Varejo (dona das lojas Casas Bahia e Ponto Frio).

Para avaliar novos investimentos, Michael abriu uma empresa de participações e contratou o executivo Luiz Carlos Nannini, que estava na consultoria Ernst & Young. Diz que está disposto a experimentar coisas novas, “mas o que mais apareceu foram projetos imobiliários”.

Os Klein decidiram abandonar o comércio e partir para outra no ano passado, depois que deu errado a tentativa de comprar o controle da Via Varejo, resultado da fusão das Casas Bahia com o Pão de Açúcar (que era dono das lojas Ponto Frio).

O próprio Michael tinha vendido o controle das Casas Bahia ao Pão de Açúcar, em 2009. Meses depois, os Klein se arrependeram. Conseguiram renegociar alguns termos do contrato, mas o relacionamento com os sócios ficou péssimo. Por isso, Michael tentou comprar o controle no ano passado.

“Não conseguimos chegar a um acordo sobre o preço”, afirma o empresário. “Tudo bem, era hora de sair do varejo. Não há ressentimento, já estamos em outra.”

Por acordo, durante cinco anos os Klein não podem entrar em nenhum negócio que possa competir com a Via Varejo. Eles ainda possuem 27,5% da companhia.

IMÓVEIS

Aos 63 anos, pai de gêmeos que nasceram há quatro meses do segundo casamento, Michael avalia pessoalmente os imóveis que compra. Nos próximos dias, vai dar uma olhada em lojas e prédios comerciais no Rio de Janeiro, Uberlândia (MG) e em cidades do Sul do Pará.

“Uma de minhas tarefas nas Casas Bahia era comprar os pontos (para lojas). Comprei 600 unidades e visitei imóveis no Brasil todo, menos no Acre.”

A imobiliária dos Klein começou em 2010, com 275 lojas. Hoje tem 384 propriedades. Cerca de 300 continuam alugadas para a Via Varejo. As outras para bancos como Bradesco e Santander, lojas do Boticário e da Marisa, concessionárias de carros.

A siderúrgica Gerdau aluga dois galpões industriais e a Petrobras ocupa um prédio de escritórios de 13 andares que Michael comprou em Salvador. “Vamos reinvestir tudo que entra na empresa.”

Michael toca os negócios da família, mas seus filhos mais velhos têm voo próprio. Natalie é dona da butique de NK Store. Raphael montou a ROIx, uma empresa de tecnologia de gestão de audiência com clientes como Gafisa, Lenovo, TIM e Casas Bahia.

CAMPOS NAZISTAS

Os Klein elitizaram a clientela, mas pouca gente entendeu tão bem quanto eles os gostos e hábitos da classe baixa. Tudo começou com Samuel, judeu polonês de 90 anos, que começou a trabalhar aos nove.

Na Segunda Guerra Mundial, escapou por um triz de morrer num campo de concentração nazista e começou a carreira empresarial no mercado negro.

Ele comprava vodca nas aldeias polonesas, trocava a bebida por latarias e cigarros com soldados americanos e depois vendia a mercadoria a militares russos.

Veio para o Brasil com 5.000 dólares, comprou uma carroça e foi vender cobertores e toalhas de porta em porta, em São Caetano do Sul, no ABC paulista, onde estavam sendo construídas as fábricas de automóveis e autopeças.

Seus primeiros clientes eram os nordestinos que chegavam para trabalhar na indústria e eram genericamente tratados como baianos. Em homenagem a eles, batizou a primeira loja de Casas Bahia.