IstoÉ Dinheiro – 26 de agosto de 2016

A família Klein, muito provavelmente, será sempre associada ao varejo e à classe C. Não há um expoente maior da ascensão desses consumidores, na última década, do que a Casas Bahia, rede fundada por Samuel Klein (1923-2014), nos anos 1950. No entanto, após a venda da companhia para o Grupo Pão de Açúcar, em 2009, hoje controlado pelo grupo francês Casino, Michael Klein, o primogênito de Samuel, tem investido em negócios mais sofisticados. O Grupo CB, que ele comanda, é dono de uma série de imóveis, acaba de abrir uma concessionária de carros de luxo, da Mercedes-Benz, e tem um braço no setor de aviação executiva, a CB Air. A empresa, inclusive, acaba de comprar a Global Aviation, a terceira maior companhia de táxi aéreo do Brasil, por R$ 70 milhões, conforme antecipado pelo site da DINHEIRO, na semana passada. Em seu hangar, cercado por helicópteros Agusta e jatos Embraer, avaliados em dezenas de milhões de dólares, Michael recebeu a DINHEIRO e falou sobre os rumos da economia, suas ideias para o transporte aéreo de luxo – algumas extraídas dos tempos de varejo popular – e negou que esteja tentando assumir o controle da Via Varejo, holding que concentra as operações de Casas Bahia e Ponto Frio. De forma bem-humorada, Klein diz que espera uma redução nas taxas de juros e que qualquer boa notícia será suficiente para devolver o otimismo aos consumidores, especialmente os da classe C. “Vislumbrando uma maior tranquilidade, o consumo volta”, afirma. Confira a entrevista:

DINHEIRO – Estamos a poucos dias da conclusão do processo de impeachment. O sr. estava esperando esse momento para investir?
MICHAEL KLEIN  – 
Muita gente estava aguardando, sim. Mas eu não estava esperando a definição de quem vai ser ou não vai ser presidente. Vamos investir, independentemente do partido que está no governo. O que estamos fazendo é acreditar no País.

DINHEIRO – O sr. acredita que outros empresários vão retomar os investimentos, agora?
KLEIN – 
Acredito que sim. Essa consolidação do setor de aviação executiva, inclusive, deve continuar e vai melhorar o mercado. Outras empresas devem trilhar esse mesmo caminho.

DINHEIRO – Como o sr. enxerga hoje a situação do varejo?
KLEIN –
 À medida que o governo der um pouco mais de estabilidade, dizendo que vai ter tranquilidade e não vai ter desemprego, o pessoal vai voltar a consumir, tanto no crediário quanto em novas compras. Os consumidores vão trocar a televisão, remodelar a casa, os móveis, celular, etc. O pessoal vai acabar fazendo. Vislumbrando uma maior tranquilidade, o consumo volta.

DINHEIRO – A classe C ainda tem potencial para crescer?
KLEIN –
 Lógico. A classe C vai voltar a crescer. Ela é a maior do País. Qualquer ajudazinha, qualquer tranquilidade, mostra para eles que tudo vai ser muito bom. Eu tenho certeza disso.

DINHEIRO – O crédito, no entanto, está muito caro. Isso impede novos investimentos?
KLEIN – 
O próprio governo tem sinalizado que, caindo a inflação, os juros cairão naturalmente. Todas as projeções dos bancos apontam que a Selic estará em torno de 12% no final do ano e, daqui a dois ou três anos, estará em 7%. Ou seja, o pessoal já está apostando em uma taxa competitiva, de primeiro mundo, em 2018 ou 2019. Isso vai dar tranquilidade para investir.

DINHEIRO – Ou seja, há um clima melhor, acompanhado de indicadores positivos.
KLEIN –
 Sim, os indicadores
estão mostrando isso. As taxas de juros de longo prazo já estão mais baixas. O próprio governo tem falado em aproximar as taxas de longo prazo das de curto prazo. Eu entendo que é levar a de curto prazo
para o patamar da de longo prazo,
e não ao contrário (risos). De qualquer maneira, os juros estarão
mais baixos.

DINHEIRO – O sr. está com recursos para investir e apostou nos setores de automóveis de luxo e de aviação executiva. Em quais outras áreas pretende aportar?
KLEIN –
 Vamos continuar procurando novos negócios. Deve aparecer alguma outra coisa na área de energia Faremos um plano de negócios para expandir. Agora, se não der para comprar, a gente cria algo novo.

DINHEIRO – Já existe alguma ideia?
KLEIN – 
Ainda não. Analisamos muita coisa. Tem se falado muito em energia renovável, alguma coisa nesse sentido.Na hora certa vai aparecer.

DINHEIRO – Voltar para o varejo está nos planos?
KLEIN –
 Não, até por força de contrato. Eu tenho um acordo de não competição, que vai começar no dia em que eu deixar o conselho de administração da Via Varejo. Quando eu resolver fazer isso, tenho mais cinco anos pela frente sem poder entrar no varejo. Não é interesse meu.

DINHEIRO – Agora, surgiram informações de que o sr. poderia retomar o controle da Via Varejo…
KLEIN –
 Isso não procede. Até porque, para alguém querer comprar, outro alguém precisa querer vender. Como não tem ninguém querendo vender, então não tenho o que comprar. Desculpe-me a brincadeira, mas é verdade (risos).

DINHEIRO – Mas também surgiram informações de que, do outro lado, há interesse em vender…
KLEIN – 
Isso não procede.

DINHEIRO – A família Klein trabalhava com a classe C quando ninguém ainda pensava nisso. Agora que esse segmento da população está na mira da maioria das empresas, o sr. investe em carros de luxo e jatos executivos. Mudou de lado?
KLEIN –
 Nossas empresas, tanto na área de carros, com a concessionária Mercedes-Benz, quanto no setor de fretamento de jatos, se resumem a uma coisa só: prestação de serviços. Prestar serviço é atender bem, não importa se é a classe C ou a classe A. O que queremos é que as pessoas voem com a gente e sintam-se felizes. Queremos entregar tudo o que prometemos. A ideia, portanto, é ser um bom prestador de serviço. A classe A é menos afetada em momentos de crise. A volatilidade é menor. Esse pessoal sempre precisará de aeronaves, helicópteros e carros. Fazendeiros, por exemplo, precisam chegar às suas fazendas.

DINHEIRO – Os aviões particulares são vistos como um artigo de luxo, mas são, também, ferramentas de negócios…
KLEIN – 
O avião, bem utilizado, é uma ferramenta de trabalho. O proprietário pode passar em duas cidades e, no final do dia, está voltando para casa. O que a gente percebe é isso. Muita gente pensa que viagem de avião é só para rico, mas tem executivo que precisa disso. Ter a possibilidade de fazer mais negócios é muito importante.

DINHEIRO – É algo que o sr. viveu na sua experiência como empresário?
KLEIN – 
Sim. Nas Casas Bahia, muitas vezes eu precisava ir para determinada cidade prospectar um imóvel, depois ir para outro local fazer uma inauguração. Chegamos a inaugurar quatro lojas, em três Estados, no mesmo dia.

DINHEIRO – Isso só com avião…
KLEIN –
 Não é nem com um, é com dois aviões! Essa experiência do empresário de visitar todos os pontos comerciais é de fundamental importância. Como eu já utilizava esse tipo de serviço, decidi passar isso para os outros.

DINHEIRO – O mercado de aviação executiva, no entanto, é extremamente pulverizado e competitivo. Que tipo de inovação o sr. acredita que pode agregar ao setor?
KLEIN – 
Nós já temos algum tipo de prestação de serviço, de ‘hangaragem’ e gerenciamento de aeronaves. No futuro, após a aprovação do negócio pela Anac (Agência de Aviação Civil) e pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), poderemos oferecer mais serviços. Ao juntar as duas frotas, teremos um leque maior de opções. O cliente, por exemplo, que tem um Phenom 300 (jato da Embraer de curto alcance) gerenciado por nós, mas precisa fazer uma viagem mais longa, vai poder utilizar nosso táxi aéreo, ao mesmo tempo em que a gente freta sua aeronave. Vemos, também, a necessidade de desenvolver o segmento de propriedade compartilhada. Outra ideia é criar um cartão fidelidade que dá a possibilidade de fazer upgrade de aeronaves.

DINHEIRO – Essas ideias vêm dos tempos da Casas Bahia?
KLEIN –
 No fundo, é tudo varejo. Mas você está oferecendo um serviço, e não vendendo eletroeletrônicos. Ou também pode vender partes das aeronaves. É outro público, mas não deixa de ser varejo. Podemos até fazer carnê (risos).

DINHEIRO – As vendas de aeronaves estiveram praticamente paradas nos últimos dois anos. Há uma retomada, neste ano?
KLEIN –
 Eu não estou enxergando isso. O Brasil era o segundo em aviação executiva, atrás dos Estados Unidos. O que tem se falado no mercado é que o México já nos ultrapassou. Nos últimos dois ou três anos, saíram mais de 300 aeronaves do País. Para ter liquidez, o pessoal tem levado seus aviões ou helicópteros para vender no mercado americano.

DINHEIRO – Isso significa que a economia não está reaquecendo, de maneira geral?
KLEIN –
 O Brasil verá uma retomada da economia. Mas muitos empresários, em vez de imobilizar um patrimônio tão grande em um avião, ter piloto e tudo mais, estão achando mais fácil utilizar o táxi aéreo.

DINHEIRO – A Global não representa nenhum grande fabricante de aviões, ao contrário das suas maiores rivais, Líder e TAM. Isso é um problema?
KLEIN – 
Temos mais de 20 aeronaves gerenciadas, contando as duas empresas. No momento em que esses clientes forem trocar de avião, vamos poder oferecer mais opções. Em vez de focar em apenas um fabricante, vamos trabalhar com Embraer, Dassault, Gulfstream. Daremos melhores condições de oferta para os clientes.